IÊ! Volta do mundo: A trajetória de 48 anos de Mestre Dingo, do Ceará para a Europa.
#PERFIL“Jovens, respeitem e ouçam os seus Mestres!”
Em 1977, sob a brisa e o cenário inconfundível da Praia de Iracema, em Fortaleza, um jovem recém-chegado do Recife dava seus primeiros passos em uma arte que ainda engatinhava no Ceará: a capoeira. Naquele tempo, pouco conhecida e cercada de preconceitos, a prática era vista por muitos como marginal.
Foi nesse ambiente de resistência que Fernando Cesar de Araújo Lima, mais conhecido como Mestre Dingo, iniciou sua caminhada, que se transformaria em um legado de 48 anos dedicados à roda.
"Naquela época, as rodas eram poucas e ainda careciam de técnica mais avançada. O conhecimento vinha de livros, viagens e contatos com mestres de outros estados. A chegada de referências como Mestre Squisito, de Brasília, ajudou a abrir caminhos e modernizar a capoeira em Fortaleza", relembra.
Do Ceará para o mundo
Após quase três décadas atuando em grupos tradicionais, Mestre Dingo escreveu parte importante de sua história ao lado de um dos nomes mais influentes da capoeira contemporânea: Mestre Camisa, fundador do Abadá-Capoeira. Durante muitos anos, Dingo representou o grupo com orgulho e dedicação, levando sua bandeira para o Ceará e ajudando a expandir o alcance da arte.
Em 2005, sentiu que era o momento de fundar um grupo com sua própria identidade: nascia o Capoeira Mundi. Desde então, a iniciativa alia preservação cultural e inclusão social de crianças e adolescentes em Fortaleza. Com o tempo, o grupo ganhou filiais na França, Inglaterra e, mais recentemente, na Alemanha - país onde o mestre foi pessoalmente implantar o grupo, em Munique.
A experiência internacional reforçou a dimensão pedagógica e cultural da capoeira. "Na Alemanha, a capoeira é abraçada como expressão cultural brasileira, valorizada por seu vínculo com a ancestralidade e também como instrumento de ensino da língua portuguesa", destaca. A boa receptividade europeia ajudou a consolidar a arte como ponte cultural, ultrapassando fronteiras e ampliando horizontes.
A evolução de uma arte em movimento
Com quase meio século de dedicação, Mestre Dingo testemunhou a transição da capoeira marginalizada para uma prática global.
"Houve uma evolução metodológica e pedagógica impulsionada por estudos e pesquisas sérias. Porém, ainda sinto falta de maior respeito à ancestralidade e valorização dos mais velhos", analisa.
Nesse caminho de evolução, a memória também resgata a contribuição de grandes mestres que inspiraram gerações. Entre eles, está o próprio Mestre Camisa, cuja fundação do Abadá-Capoeira marcou a história e abriu novas perspectivas para a capoeira no Brasil e no exterior. Sua influência permanece viva na lembrança daqueles que, como Mestre Dingo, ajudaram a construir pontes entre tradição e modernidade.
O legado e o futuro
Assumindo com honra a responsabilidade de ser pioneiro, Mestre Dingo acredita que o futuro da capoeira está diretamente ligado às novas gerações. Sua esperança é vê-la reconhecida como disciplina básica nas escolas brasileiras e, em breve, como esporte olímpico.
Aos jovens capoeiristas, deixa um conselho direto: "Respeitem e ouçam seus mestres. A dedicação e o treino são fundamentais para trilhar uma boa trajetória. O futuro da capoeira depende de cada um de nós".
Assim, a história de Mestre Dingo ecoa como o som do berimbau que não se cala. Da Praia de Iracema às rodas internacionais, sua trajetória é testemunho vivo da força, da resistência e da beleza da capoeira, expressão que continua a gingar entre tradição e modernidade sempre reverenciando aqueles que abriram caminho, como Mestre Camisa, mestre de mestres e referência incontornável da arte.
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