Entre o cais dos pescadores e os arranha-céus, a Praia de Iracema celebra 100 anos como a alma boêmia e cultural de Fortaleza, testemunha silenciosa de séculos de história que vão da lendária índia à efervescência.
#HISTÓRIAQuando a cidade de Fortaleza se iniciou, a busca pela água era feita nos rios e nos riachos porque a água do mar, por ser salgada, não servia para cozinhar, tomar banho, lavar roupas e outras coisas mais. Por isso, a praia que banhava Fortaleza não era muito habitada nem muito povoada, era como se fosse o quintal da cidade.
Quem começou a descobrir o mar em Fortaleza foram os pescadores, que primeiramente pescaram para sua alimentação e, proporcionalmente, foram, aos poucos, pescando para vender. Por causa disso, o lugar onde eles moravam, próximo à praia, se transformou com suas casinhas feitas de palha, no bairro dos pescadores, e a praia mais próxima da cidade era chamada de **Praia do Peixe**.
Isso continuou até os primeiros anos do século XX, quando os escritores, poetas, intelectuais e a imprensa começaram a prestar atenção à praia. Com o surgimento das crônicas sobre a cidade, nos anos 1920, a cronista Adília de Albuquerque, que era leitora de José de Alencar, começou a citar a Praia do Peixe em seus escritos como **Praia de Iracema**, inspirada na personagem de Alencar.
Por causa disso, e também porque os intelectuais não gostavam do nome de Praia do Peixe, houve uma reunião deles e resolveram mudar o nome da praia para Iracema. A **mudança oficial do nome da praia deu-se no dia 7 de maio de 1925**, e na época havia uma febre na cidade, quando tudo era Iracema.
A comissão que fez os trabalhos para a modificação do nome da Praia do Peixe para Praia de Iracema foi formada por Júlia Galeno, Adília de Albuquerque Moraes, Henriqueta Galeno, Demócrito Rocha, Júlio Maciel, Beni Carvalho e Gastão Justa.
A Febre de Iracema na Capital
Em 1925, morreu, na Capital Federal, o Rio de Janeiro, a bailarina Maria Alves Alencar, que usava o pseudônimo de Iracema de Alencar. Em junho do mesmo ano, surgiu a Padaria Iracema, de Antônio Oliveira. Logo, a The Ceará Light inaugura a linha de bondes para a Praia de Iracema, surge o Restaurante Beira-Mar, que usava o endereço da Praia de Iracema — era o famoso Restaurante do Ramon. Em 1928, surge a revista "Iracema", de orientação literária. No Benfica, na avenida principal, é fundado o Cine Recreio-Iracema. Surge também a Torrefação Iracema. Em 1930, surgem vários times de futebol, entre eles um chamado Iracema, dentre outras atividades.
E continuou a influência do nome Iracema na cidade, com o surgimento, em 1916, do Palacete Iracema e da casa comercial Casa Iracema. Existiu na Praia de Iracema o Cine Iracema em 1936. Surge uma empresa de ônibus de Paulo Setúbal chamada Empresa Iracema. Mas já existia, desde o início do século XX, o nome Iracema em voga, como o Clube Iracema, nascido no final do século XIX; o Restaurante Iracema, que era um dos quiosques da Praça do Ferreira, a Fábrica de Cigarros Iracema, vinda também do final do século XIX, e, no penúltimo ano do século XIX, surgiu a Iracema Literária, sociedade de escritores.
Redescoberta do Mar e Balneário
A partir dos anos 1930, a pesca se intensifica pelo aumento da procura da população pelos produtos marinhos e surge a Confederação dos Pescadores do Ceará, que passa a reger 18 colônias de pescadores existentes no Estado. Em Fortaleza, ficam as zonas: 2-1 (Praia do Peixe ou de Iracema), 2-2 (Mucuripe) e 2-12 (Praia dos Arpoadores), tomando a costa da cidade. A Praia de Iracema fica com a Zona 1, que abrangia a Praia de Iracema, Meireles e Volta da Jurema.
A Praia de Iracema nos primeiros anos do século XX, com banhistas e a linha de edifícios antigos ao fundo.
Por essa época, a Praia de Iracema começou a ser vista como um recanto da cidade a ser explorado não somente para a pesca, mas também como uma espécie de balneário e local de recreio, tanto que começaram a ser construídas boas casas de alvenaria que serviam para os ricaços da cidade passarem suas férias e, quando não estavam nelas, alugavam para outras pessoas, muitas delas vindas de outros locais.
A cantora Carmen Costa morou na Praia de Iracema, em uma dessas casas, por mais de um ano. O arquiteto Emílio Hinko também residiu em uma das casas da chamada Avenida Beira-Mar, como era chamada a pista de paralelepípedo que formava o quarteirão que ia da Igreja de São Pedro até o local onde hoje fica a Iracema Guardiã.
Fernando Pinto, o comerciante que gostava de cultura, fez, naquele quarteirão, uma boa casa a que deu o nome de Jangada Clube e, como ele, outros construíram outras casas que chamavam pessoas da população para a Praia de Iracema.
Com a ida dessas casas e do Clube Iracema, cresceu o número de visitantes na praia e foi "descoberto" o banho de mar, que antes não era muito praticado, quando as pessoas iam à praia vestidas e de sapatos para colher búzios e passear e, quando muito, tiravam os sapatos e arregaçavam as calças para molhar os pés na água do mar.
Com a "descoberta" do banho de mar, surgiram as barracas que alugavam calções e maiôs de banho, vendedores de sorvetes e de pirulitos e até de outras coisas. A praia passou a ser um chamariz nos dias feriados e nos domingos, para passeios de visitantes da cidade e dos próprios moradores, que passaram a usar a praia como mais uma opção de divertimento.
Equipamentos e Estabilidade
Existem na Praia de Iracema equipamentos importantes que lhe dão segurança e estabilidade e que já vêm de muito tempo. A Vila Morena, casa construída por José Magalhães Porto, vindo do Recife em 1915, foi terminada em 1920, com muitas peças importadas, e, na época da guerra, foi alugada aos americanos, que nela instalaram o United Service Office, que era, ao mesmo tempo, o escritório oficial dos norte-americanos que aqui estavam para entrar na guerra via África e também servia de cassino, onde eram recebidos artistas que vinham entreter os soldados.
Tivemos o Edifício São Pedro, com o Iracema Plaza Hotel, em frente à igreja de São Pedro, a construção de belas casas nas proximidades da praia, formando os bairros Praia de Iracema e Meireles; e, aos poucos, vários equipamentos se aproximaram do mar, como o Tribunal Regional Eleitoral, a Secretaria de Saúde do Estado, várias agências bancárias e vários hotéis surgiram na beira-mar, ornamentando a Avenida Beira-Mar, como o Esplanada Hotel, o Alfredo, Rei da Peixada, o Restaurante Beira-Mar, o Restaurante Lido, sem falar nos restaurantes dos clubes Ideal, Comercial Clube, Náutico, etc. Depois da guerra, surgiu, na Vila Morena, o Estoril, que congregou a intelectualidade da capital, juntamente com outros equipamentos mais recentes, como os que existem atualmente.
Resumindo: a Praia de Iracema é uma festa na Fortaleza.
Roda de capoeira na Praia de Iracema na década de 80. Mestres Dunga e Dingo e seus alunos.